05 DICAS DE HUMOR

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Já conheceu alguém que sabe contar piada de maneira tão bacana que se você tenta contar não funciona? Ou o sujeito que mesmo quando nem está contando uma história cômica faz com que as pessoas ao redor riam sem parar? Já conheceu pessoas assim? Bom, talvez esses sujeitos cômicos não tenham percebido, pois aprenderam tudo de modo natural, ou seja, eles têm talento pra isso, aprenderam empiricamente. Mas fazer rir também pode ser aprendido de modo consciente… isto é, existem técnicas de humor.

Aí alguém pode dizer, “ah! Mas mesmo aprendendo técnicas eu não consigo fazer ninguém rir.” Bom, aí o que deve ser feito é a prática. Pois aprender é assim mesmo… No início não conseguimos colocar tudo em prática, mas aos poucos as coisas vão saindo mais organicamente. Tal como aprender a cozinhar, a desenhar, a escrever, a tocar um instrumento… tem uma parte que é possível de aprender racionalmente, mas o restante é intuitivo, possível de se aprimorar apenas através da prática.

Vamos às dicas:

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#1 REGRA DE TRÊS
Um dos grandes filósofos do riso, chamado Henri Bergson, percebeu que o caráter cômico das coisas está no que ele chama de TROPEÇO. Isto é, o riso surge do estranho… surge do desvio de comportamento no cotidiano automático, de uma automatização de um elemento cotidiano. Por exemplo, um indivíduo levanta-se todos os dias e calça seu par de sapatos automaticamente para sair de casa, em uma determinada manhã, sem perceber, o sujeito coloca em seus pés sapatos de pares diferentes, e só repara quando alguém ri dessa situação. Nesse caso, percebe-se que a hilaridade surge justamente da percepção de uma atualização da ação cotidiana. A atitude mecânica de calçar os sapatos é despertada à vida quando ocorre um desvio de maneira inesperada; o cômico surge como algo “vivo” colado sobre uma ação mecanizada da rotina automática, e essa coisa viva vem à tona quando alguém imprime-lhe o riso.

Para que isso funcione em cena é necessário que o artista dite qual é a regra, qual é o padrão, qual é o automatismo, para então quebrá-lo, e com isso causar estranheza e com ela o riso. Fazer uma atitude três vezes funciona muito bem para produzir o tropeço, desde que nas duas primeiras ela ocorra de modo convencional e na terceira de um modo que foge à maneira convencional. As duas primeiras ditam o padrão e a terceira o quebra.

Ex: Diálogo entre um discípulo e um monge.

– Mestre, qual o segredo para a sabedoria?
– Sempre agir com calma e sossego.
– Mestre, pode repetir para mim, qual o segredo da sabedoria?
– Sempre agir com calma e sossego.
– Desculpe mestre, me perdi, qual é o segredo da sabedoria?
– PUTZ GRILA!!! CALMA E SOSSEGO CARAMBA!!!

 

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#2 CARICATURA
Outra teoria propõe que o riso está relacionado ao que de inesperado nos surge visual e sonoramente. Um inesperado de tal modo que está vinculado ao exagero de aparências. Pensando nisso algo muito contributivo para causar o humor é a caricatura, já reparou como a maior parte dos desenhos caricaturados nos parecem engraçados? Porquê? Devido ao exagero. Cenas de novelas mexicanas, crianças encenando personagens, um amigo imitando o outro ao contar uma história… nesses três exemplos, mesmo se a intenção não for causar o riso, quando vemos que os interlocutores exageram nos causa uma coceira no cérebro que acha graça dos movimentos exagerados. Talvez seja o cérebro réptil reagindo à estranheza do excesso.

Tendo isso como base vale pensar que, quando encenar em algum contexto cômico, o uso de movimento, trejeitos e vozes exageradas podem ajudar, e muito, a conseguir um tom mais humorístico. Mas cuidado! Cada contexto é um contexto, veja bem em que medida a caricatura deve ser realizada, as vezes muito exagero pode parecer que estamos tentando inserir comicidade à força, e não é essa a intenção.

Um exemplo clássico de exagero é a própria maquiagem dos palhaços, que ampliam os traços do rosto e das expressões dos indivíduos.

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#3 METÁFORA, METONÍMIA E TROCADILHOS
Trocar uma coisa por outra tem força cômica justamente por entrar no terreno que comentamos anteriormente que Bergson fala, a de quebrar com o automatismo esperado, quebrar com o terreno ideal e substituir por algo não esperado, tropeçar. Bom, diante disso o uso de metáfora, metonímia e trocadilhos é ótimo para causar risos.

METÁFORA é quando trocamos uma palavra ou frase fazendo analogia com outra coisa, por exemplo “O amor é uma flor roxa que nasce no coração do trouxa.”, evidentemente que o amor não é uma flor, e sim um sentimento abstrato, mas ao dar uma cara ao amor utilizando essa analogia com a flor estamos criando uma metáfora. E como isso causar riso? Usando a metáfora como se fosse algo real. Por exemplo, partindo dessa mesma frase imagine um palhaço dizendo, “hummm… por isso o músico Criolo diz que não tem amor em SP, aquela cidade quase não tem flor de cor nenhuma, muito menos roxa.”

METONÍMIA Quando empregamos um termo no lugar de outro, mas, diferente da metáfora em que os termos podem ser de universos distintos, no caso da metonímia há uma estreita relação entre um e outro. Um clássico exemplo disso é quando substituímos a parte pelo todo, ou a obra pelo autor.

Exemplo:
– Adoro escutar Beethoven, e você? (no caso uma metonímia em que a obra é substituída pelo autor)
– Ah, não gosto não, ele é muito mal humorado. (sentido cômico quando tomamos a afirmação ao pé da letra, acreditando que estamos falando justamente do autor)

TROCADILHO
Já trocadilhos são aquelas situações em que substituímos o significado de uma palavra, ou um conjunto de palavras pela possibilidade de interpretação que sua forma fonética permite. Parece estranho falando assim na teoria, mas na prática é bem simples. Sabe aquele nome de alguém que, quando dito, parece estar dizendo outra coisa? Isso é um trocadilho.

Exemplos de diversos trocadilhos:
– Eu acordo mais tarde, o Edir Macedo.
– Fulando está aqui, a Rita Lee.
– Ninguém quis vir pra festa, mas a Cássia Kiss.

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#4 PIADA RECORRENTE
Esse é um tipo de atitude de humor interessante de ser trabalhado em espetáculo mais longos, mas há exemplos em situações curtas também. A piada recorrente (também conhecida como “running gag”) é o tipo de situação cômica que vira e mexe volta a aparecer na cena. Você já assistiu “The Big Bang Theory”, caso tenha assistido devo conhecer o bordão “toc, toc, toc – Penny! toc, toc, toc – Penny! toc, toc, toc – Penny!”. Isso é o que o personagem do Sheldon faz ao bater na porta da vizinha. É engraçado da primeira vez, e apesar dele sempre repetir essa ação, a piada continua a ser engraçada em várias das outras vezes. Outro exemplo clássico é a piada da “vaca azul”, bom, não vou estragar a surpresa, mas é uma piada brasileira (nem tão engraçada assim), mas que faz uso dessa “running gag”, a vaca aparece em mais de um momento, e em realidade em mais de uma piada.

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#5 PLANTAR A PIADA, ou PISTA E RECOMPENSA
Essa é uma técnica muito antiga, também utilizada em situações que não são exatamente cômicas, mas no caso de seu uso em comédia ela funciona da seguinte maneira: o interlocutor dá uma pista inicial em que o ouvinte vai escutar, mas não necessariamente relacionar com o desfecho que estará num futuro próximo. Então o interlocutor transita em seu texto por outros caminhos, fala de outras coisas e, lá na frente, menciona algo que se relaciona com a pista que plantou lá atrás. Entendeu? Bom, fica mais fácil de falar exemplificando.

Ex: Um palhaço entra em cena e deixa seu chapéu sobre um banco, dentro do chapéu coloca uma série de ovos (o motivo para isso pode ser qualquer um, ele comprou os ovos e não tinha como guardar ou qualquer outra coisa). Depois disso ele fala com a platéia, conversa sobre um monte de coisas, faz algumas gags, mas, depois de muito agir e conversar resolve descansar e, para isso, senta de uma vez no banco, em cima de seu chapéu que está cheio de ovos. O caso é que quando ele faz isso cria um ponto cômico, pois tanto a sua persona quanto o público esquecem dos ovos, eles foram colocados em cena apenas como uma pista… e ao fim vem a recompensa, sentar nos ovos causa o riso.

Aos poucos iremos colocando mais dicas diversas por aqui, seja de teatro, humor, cultura popular ou desenho. Para ficar por dentro das atualizações, cadastre seu e-mail, e lhe enviaremos periodicamente um newsletter gratuito com as novidades.

Augusto e Elaine fundaram a Cia Arte Negus e acreditam no riso como instrumento de transformação social.

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  • A piada da vaca azul não seria um tipo pista e recompensa também?
    Esse quinto item me lembrou dos filmes do Lubitsch, e me deu uma pista de por onde eu tenho que ir para entender/analisar a comédia dele.

    Vocês já viram um documentário da BBC que foi ao ar em 1992 que possui 6 episódios chamado “Funny Business” onde no primeiro, o Rowan Atkinson
    dá tipo uma aula de comédia visual.
    Dá pra assistir online aqui:

    mas eu recomendo fazer o download antes que tirem da internet:

    • Arte Negus

      Olá Geraldo, tudo bem?

      Você tem razão, é isso mesmo. A piada da “vaca azul” é um bom exemplo de pista e recompensa, de imediato parece algo sem nexo, mas faz coesão quando lá na frente a vaca volta a aparecer.

      Opa, anotamos aqui as duas dicas, tanto dos filmes de Lubitsch, quanto do documentário da BBC. Iremos ver os dois, quem sabe publicar aqui essa sugestão, o que acha?

      Abração!

      Augusto – Cia Arte Negus

      • Por mim tudo bem se vocês gostarem, na verdade eu fico até feliz, porque vocês podem até absorver as informações de uma forma mais profunda do que eu que estou começando agora a tentar entender a comédia e passar essas informações com um ponto de vista mais crítico.