COMO DESENVOLVER PERSONAGENS QUE AJUDAM SEU TEXTO

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30 Olá garobabas, estamos sempre tentando inserir conteúdo diverso que tenha a ver com as poéticas artísticas que pesquisamos, há algum tempo comentamos sobre como escrever um texto dramatúrgico (quem não viu pode acompanhar aqui!). Quando você se debruçar sobre a escrita de um roteiro (seja ele literário, dramatúrgico, cinematográfico, ou para quadrinhos), vale a pena se ater a certos recursos técnicos que contribuem para o bom desenvolvimento da trama que você irá desenvolver. Há, desde milênios atrás, muitos pesquisadores sobre técnicas de um roteiro, ainda que vários desses pesquisadores não o chamassem de “roteiro”. Vale iniciar citando o próprio Aristóteles, que propôs a estrutura de três atos (início, meio e fim), ondo o início é o “mundo comum” de sua história, o local onde tudo está bem (é claro que o “mundo comum” é diferente para cada contexto de história, o mundo comum do Bob Esponja, por exemplo, é fritar hambúrgueres  debaixo do mar, hehe), até que acontecesse algo. Esse momento, em que acontece algo, é o primeiro grande ponto de virada de um roteiro, do ponto de vista clássico sempre tem que acontecer algo, é lógico que hoje, com o teatro contemporâneo, há algumas exceções, mas do ponto de vista clássico sempre ocorre algo e é isso que leva ao meio. É no meio que o roteiro desenvolve a maior parte de suas “cenas” (no caso do teatro, cinema ou quadrinhos), ou “capítulos”, no caso de um livro. Até que os conflitos sejam resolvidos e o roteiro caminha para o fim. Bom, mas o foco aqui é dialogar sobre personagens que ajudem na construção dos embates, das cenas, dos capítulos, enfim, personagens que contribuem no bom desenvolvimento da trama. Bom, há inúmeros modos de compreender como construir personagens que deixem o texto mais crível (ou, incrível, do ponto de vista positivo dessa palavra, hehe). A Commedia del’arte ajudou propondo alguns estereótipos, Arístoteles também ajudou, mas os personagens que iremos apresentar aqui são retirados do pensamento de Joseph Campbell (no livro O HERÓI DE MIL FACES) e Christpher Vogler (no livro A JORNADA DO ESCRITOR). Lembre-se, ao escrever um texto, VOCÊ CRIA o que acontece, assim sendo, tem de partir de você a criação desses personagens. Sem mais delongas, vamos às personas que ajudam o texto a ficar mais vivo.

HERÓI
Esse é o protagonista, ele conduz a ação, as coisas ocorrem ao redor dele e sob influência dele. Mas é necessário perceber que um bom herói necessita de um desvio de caráter, um desequilíbrio em seu comportamento, e a trama toda o levará a conseguir superar esse desequilíbrio.

Por exemplo: Frodo (Senhor dos Anéis), possui uma vida pacata, cotidiana e feliz, é um rapaz tranquilo e inocente, até demais, e a tramar toda dos livros faz com que ele torna-se um ser humano, ou melhor, um hobbit, mais maduro. Os Porquinhos (dos Três Porquinhos) vencem o desvio de caráter depois de sua trama, tornando-se menos preguiçosos. Shrek (do Shrek), torna-se menos ranzinza, e assim por diante. Mas no início da história, é mais empático se o personagem possui esse desiquilíbrio. Afinal, nenhum ser humano é perfeito… e é isso que cria a empatia. Ao vermos um herói com desajustes, nos identificamos, pois nós temos nossos próprios desiquilíbrios.

GUARDIÃO DO LIMIAR
Esse é o primeiro personagem que oferece algum tipo de embate para o protagonista, normalmente ele está entre o “mundo comum” e o “até que…” (que é o ponto de virada para o segundo ato da história). Quando o herói passa por ele é como se a jornada realmente houvesse iniciado. Normalmente o Guardião do Limiar é um grande aliado do Vilão da história, noutras vezes ele pode ser apenas um objeto, um elemento que simbolize essa passagem do herói de um mundo comum ao mundo da aventura.

Por exemplo: No Senhor dos Anéis o Frodo enfrenta os Nazgul; nos Três Porquinhos enfrentam o lobo pela primeira vez (que aparece desse modo como Guardião do Limiar); em Matrix Neo toma a pílula vermelha; Alice no país da maravilhas enfrenta a queda no buraco perseguindo o coelho branco, e assim por diante. Simbolicamente esse personagem (ou elemento qualquer) representa justamente um rito de passagem, uma transição da suposta “infância” do herói, ou seja, o momento em que ele ainda está em seu mundo comum, ´para o caminho da maturidade, que é a longa jornada que alterará seu desvio de comportamento.

SOMBRA
Esse é o vilão, o inimigo do herói, que, muitas vezes é personificado numa personagem, mas também pode ser um embate pessoal que o herói tem que enfrentar. Isso é muito importante de se entender, os arquétipos aqui apresentados podem ser personagens ou elementos simbólicos. Mas é claro que vale exemplificar com alguns vilões clássicos de livros, filmes e quadrinhos. Lembrando que essa persona normalmente é o antagonista do herói, possui então posição oposta ao do protagonista; contudo, lembram-se que anteriormente foi dito que um bom herói possui desvios de comportamento? Desvios de caráter? O mesmo se aplica ao vilão, bons vilões são aqueles que te convencem que podem existir na vida real e, na vida real, por mais que existam pessoas mesquinhas, cruéis, irresponsáveis, sociopatas, mesmo elas possuem, vez ou outra, características que nos fazem simpatizar, que nos fazem perceber elementos de humanidade.

Por exemplo: Darth Vader em contraponto à Luke, em Guerra nas Estrelas (que, apesar de cruel, possuía todo um passado – revelado em outros filmes da série – que o conduziu a essa postura, essa é a humanidade presente nele); Sauron em contraponto à Frodo em Senhor dos Anéis (cego pelo poder, com vontade de vingança por ter sido derrotado no passado, a cegueira e vingança são bem humanos, não?); A Rainha Vermelha em oposição à Alice, em Alice no país das Maravilhas (vaidosa, como todo o universo comercial dos cosméticos pedem para sermos); Capitão Gancho em oposição à Peter Pan, em Peter Pan; a Cuca para a Emília, no Sítio do Pica Pau Amarelo, e assim vai.

MENTOR
Esse é o personagem que auxilia o amadurecimento do herói, ele orienta os caminhos, as vezes de maneira óbvia, dando-lhe lições, noutras de maneira mais sutil, oferecendo pistas para que o protagonista amadureça por si só. Assim como os outros pode ser personificado num personagem ou apenas um elemento simbólico (todos os personagens podem ser assim, acho que nem iremos mais repetir isso, hehehe). Muitas vezes ele revela um segredo que será crucial para que o roteiro tenha novos pontos de virada, para que a história caminhe.

Exemplos de mentores: Merlin para o jovem Arthur; Gandalf para Frodo; Obiwan para Luke; Abade Faria para Edmond Dantès (Conde de Monte Cristo); Fada Madrinha para Cinderela; Alfred para Batman; Mufasa para Simba; e assim por diante.

PÍCARO
Temos que confessar que dentre os vários arquétipos existentes nessas propostas de técnicas de elaboração de roteiros e textos, o Pícaro, é um dos nossos personagens favoritos. Em outras ocasiões ele é chamado e Trickster, fauno, brincante, clown, excêntrico, ou, o nosso termo preferido, palhaço! A presença dele em textos se dá de vários modos, ele pode ser um companheiro próximo do protagonista, ou um parceiro que aparece vez ou outra. É um personagem chave que tem a fundamental tarefa de fazer o roteiro andar em momentos que, supostamente, ficaria travado. Nos momentos de dúvida do personagem principal ele pode fornecer diálogos que sirvam de injeção de ânimo; em momentos em que o vilão parece ganhar ele pode inserir uma contribuição que atrapalhe o vilão; o legal é usar a criatividade para saber que, quando você ver a página branca e não ter mais ideias, você tem uma carta de personagens que lhe ajudarão, pessoas que ganham vida própria e não deixam seu texto ficar empacado.
Além disso que  foi apresentado, esse personagem tem o potencial de inserir momentos de alívio à trama (independente de como sua trama seja), essas ocasiões são chamadas de “respiro cômico” (ou comic releaf), que são aqueles instantes em que, mesmo em meio a uma guerra, um personagem olha o lado positivo, ou coloca uma opinião divertida, enfim, são várias as possibilidades. Por essas e outras que há roteiristas e escritores que chamam esse personagem de PERSONAGEM DINÂMICO. Ele altera a dinâmica da história.

Exemplos de Pícaro: Timão e Pumba em O Rei Leão; R2D2 e C3PO em Guerra nas Estrelas; os anões em Branca de Neve; Jacopo em O Conde de Monte Cristo; Meriadoc e Peregrin Tuk em O Senhor dos Anéis; A vidente Oda Mae Brown em Ghost; e assim vai, tenho certeza de que você consegue lembrar de uma lista grande de pícaros marcantes da história dos filmes e dos livros.
VÍTIMA
Essa é a “mocinha”, a que faz com que em algum momento o protagonista tenha que se movimentar ao sacrifício, muitas vezes levando a trama à desandar. Noutras vezes esse arquétipo é chamado de CAMALEÃO, pois não é possível distinguir se está arrastando o herói à coisas positivas ou negativas. Também é chamado de PERSONAGEM DINÂMICO, pois altera o andamento do texto.

Exemplos: Uni em Caverna do Dragão; Mercedès em O Conde de Monte Cristo; Mary Jane em O Homem Aranha; as crianças em O Parque dos Dinossauros; Tina Carlyle em O Máskara; as inúmeras Bond Girls em 007; e mais uma série de personas, entre moças, crianças e, vez em quando, homens (será reflexo da hegemonia machista da realidade caindo em século de arte literária?).

Bom, para finalizar esse post, vale lembrar que ao escrever um texto você não precisa necessariamente lançar mão de todos esses arquétipos, se preferir pode apenas utilizar alguns deles. É claro que também há os personagens secundários, que trazem verossimilhança ao seu texto, fazem o leitor (espectador) perceber que aquele mundo é real, pois tem várias pessoas circulando por ele.

Acho que é isso. Espero que tenha curtido.

Em breve colocaremos mais dicas diversas aqui, entre assuntos literários (já leu o post sobre dramaturgia? veja aqui!), sugestões de leitura (e as indicações de livro? viu? aqui!), coisas de artes visuais e etc.

Beijos garobaba!!!

 

Augusto e Elaine fundaram a Cia Arte Negus e acreditam no riso como instrumento de transformação social.

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  • Juliana

    Muito boa a orientacao!! Gostei demais!

    • Arte Negus

      Valeu Juuu… ficamos contentes que tenha curtido!