COMO ESCREVER UM TEXTO DRAMATÚRGICO

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Texto
Estamos iniciando outro tipo de sessão para pulverizar conhecimento pela rede. Se trata dos posts “COMO?”. E, afinal, porque estamos fazendo isso? Bom, para explicar volto ao dia em que eu (Augusto – o Cabeção) e Elaine (a Magreta) estávamos discutindo um livro chamado “Cibercultura” de Pierre Levy, nele há um interessante conceito sobre o conhecimento com o advento da internet (e olha que o filósofo publicou esse livro nos idos de 1997, aqui no Brasil a internet mais popular era a discada), o conceito em questão é a “inteligência coletiva”, que parte do pressuposto que através da internet experiências são compartilhadas e o aprendizado de um pode tornar-se o aprendizado de vários. Dito isso, vamos à questão do post “COMO ESCREVER UM TEXTO DRAMATÚRGICO“?

Antes de tudo é necessário entender que cada escritor tem um processo particular e, quase, intransferível. Isto quer dizer que o modo que discorreremos a seguir sobre processo de criação funcionou (e ainda funciona) bem para nós, mas, para alguns pode ser que outros métodos sejam mais prazerosos e coerentes. O que será descrito a seguir são nossas compreensões sobre esse fazer artístico. Pode ser que você perceba que isso também funcione pra você, ou então perceber que outros modos que você pratica são mais produtivos, o importante é, acima de tudo, praticar, independente do método utilizado. Escreva, escreva e escreva.

Vamos inserir alguns passo que seguimos para compor nossos textos e para se escrever para teatro é necessário compreender o que é teatro, e, para nós, teatro é drama, e isso não quer dizer que seja algo para nos fazer chorar, pois o real significado de drama é AÇÃO. Ou seja, algo acontece o tempo todo, mesmo que esse algo seja o nada, seja uma cena parada, mas algo está sendo encenado todo o tempo. É claro que podem haver narrações durante uma apresentação de teatro, mas, em contraponto à narração de histórias, que é predominantemente narrada, numa apresentação teatral a ação deve ocorrer em predominância, pois senão, torna-se uma narração.

1º PASSO – “PRIMEIRA IDEIA” – QUAL SUA INQUIETAÇÃO? O CONCEITO INICIAL? O TEMA? O INSIGHT?

Estamos tendo ideia o tempo todo, certo? Muitas delas são coisas simples do dia a dia, ideias de comida para se preparar, coisas para se falar numa reunião de amigos, textos para escrever na escola ou trabalho, etc. Mas algumas vezes somos tomados por uma ideia mais forte, que vem de diferentes modos, as vezes subitamente; noutras vezes ela surge calmamente, mas começa a ficar maior e maior, incomodando nossos outros pensamentos, chegando a perturbar nossa mente se não sair pra fora em forma de alguma coisa.; e em outras ocasiões vimos algo (na rua, num livro, num programa de TV, não importa) e um pensamento derivante daquele surge em nossa cabeça. Enfim, não importa o modo como a ideia surgir, o importante é perceber se ela tem força o suficiente para que você se debruce nela, o importante é saber se você quer dialogar com a ideia, se você deseja passar algum tempo aprimorando e amadurecendo ela, pois escrever até pode ser rápido, mas, normalmente, demora para o texto ir tornado-se o que queremos, por isso gostar realmente da ideia ajuda muito.

EX: Para nós a ideia de “AMBULANTE” surgiu quase que de repente, estávamos na transição entre Cuiabá e São Paulo, e, nessas idas e vindas percebíamos, tanto no Mato Grosso como em São Paulo, a existência de uma variedade enorme de perfis de vendedores ambulante. Desde os tradicionais raizeiros e ‘homens da cobra’, até os faladores da 25 de março. Nós (ainda antes de ter a ideia do espetáculo) parávamos para assistir certas performances dos vendedores, e, de tanta admiração, um dia surgiu isso “Porque não falar sobre esse universo do comércio informal?” Aí começamos a reparar que em nossas famílias havia uma série de pessoas que já haviam sido comerciantes informal, nós mesmos já havíamos trabalhado com isso e, pouco a pouco a ideia foi contaminando cada vez mais nossa mente, queríamos falar sobre tudo: sobre a repressão que esse tipo de comerciante sofre, que, por leis que privilegiam o mercado industrial, são várias vezes proibidos de exercerem parte de suas tarefas (sei que existem situações complicadas em relação aos produtos piratas, mas até artesãos, vendedores de milho verde, de refresco de mate e muitos outros, chegaram a ser proibidos de manifestarem-se como comerciantes); queríamos falar sobre os motivos que levam uma pessoa a partir para esse universo ambulante (um mercado de trabalho instável, que não oferece vagas a todos os perfis de trabalhadores); queríamos falar sobre como angariar dinheiro é um mal necessário para se viver e conquistar desejos na atual sociedade (que tem o capital como um caminho inevitável de se dialogar); queríamos falar sobre o enorme potencial poético e estético que esses vendedores, mascateiros, raizeiros e “homens da cobra” possuem. Enfim, a vontade inicial era discutir sobre tudo! Mas aos poucos a ideia inicial ganha forma (por meio dos próximos passos) e tudo vai se canalizando.

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Imagem retirada do Blog do Dinho Santos, contando sobre como o baiano José Silva, um “Homem da Cobra”, é um artista de rua nato.

2º PASSO – “IMPROVISE” – DEIXE AS AÇÕES LHE AJUDAR A ENTENDER O CONCEITO

Essa etapa não é exatamente uma regra para a maior parte dos dramaturgos, visto que quem escreve nem sempre atua. Mas o ponto é que nós começamos a escrever improvisando cenas, é assim que fazemos. Somos um grupo pequeno, o núcleo atual de nosso grupo é formado basicamente por dois atores, Augusto e Elaine, mas temos um braço em Cuiabá, que é o Umberto Lima e a parceirona Estela Ceregatti, sem contar os parceiros de São Paulo (Abel Saavedra, Taty Kanter, Raquel Saldívia e Thiago Gim), e pelo tamanho diminuto, é possível nos encontrarmos com um frequência razoável (a principal queixa que escutamos de grupos grandes é o problema em todos terem horários juntos na agenda). Esses encontros são o momento onde improvisamos diálogos, discutimos para descobrir personagens, e, sempre de modo improvisional, vamos construindo cenas, deixando os corpos e as vozes dos personagens irem saindo, as intrigas, e tudo o mais. Nessa etapa é muito facilitador se existe alguém em sua equipe que possa ir escrevendo as ideias que vão surgindo, ou, caso você participe, assim como nós, de um grupo muito pequeno, vale a pena utilizar algum recurso de gravação de áudio e vídeo, pode até ser câmera de celular, apenas para, depois do ensaio, ir vendo as ideias que saíram.

EX: No nosso caso a querida Raquel Saldívia (figurinista e assistente de direção) e o grande Abel Saavedra é que anotavam as ideias que iam surgindo enquanto improvisávamos no processo de desenvolvimento de AMBULANTE.

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Anotações em portunhol feitas durante o desenvolvimento de AMBULANTE

3º PASSO – “ESCREVA E REESCREVA” – ESCREVA O TEXTO, ENSAIE NOVAMENTE E VEJA O QUE VAI PRECISANDO DE ALTERAÇÃO

Bom, esta é a parte na frente do computador (ou máquina de escrever, para os saudosistas de plantão), o negócio é pegar todos os papéis de ideias anotadas e ir costurando essas ideias de modo a formar um bom roteiro. Para essa etapa vale muito a pena conhecer algumas técnicas de roteiro (Inclusive há uma oficina que ministramos que trata justamente disso: estrutura de roteiro). Caso você não tenha como participar de uma oficina ou um curso sobre roteiro, há alguns livros que ajudam nesse sentido, são eles:

  • FIELD, Sid – MANUAL DE ROTEIRO
  • VOGLER, Cristopher – A JORNADA DO ESCRITOR

Num estrutura de roteiro nós analisamos o “como” e o “em que momento” certas coisas devem acontecer. É uma técnica que ajuda a passar os conceitos pretendidos sem que isso aconteça de modo muito “óbvio” ou “panfletário”.

Depois de horas no computador, digitando e corrigindo, ensaie novamente, e possivelmente você vai perceber outros locais para alterar, palavras que devem ser substituídas, então, escreva, escreva e escreva.

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Texto já cheio de anotações, em todas as páginas existem inúmeras correções e anotações.

4º PASSO – “ESCREVA O QUE NÃO APARECE” – ESCREVA SOBRE INFORMAÇÕES QUE NÃO ESTÃO NO ESPETÁCULO, MAS QUE CONTRIBUEM AO ENTENDIMENTO DA OBRA

Por fim (em relação ao texto, pois a jornada do desenvolvimento de um espetáculo continua por muito tempo, ainda existem os cenários a serem feitos, os adereços, figurinos, ensaiar com cenário, adereços e figurinos. Encontrar-se com o público e estar disposto a alterar o texto depois desse encontro) existe o momento de escrever as entrelinhas. Isto é, escreva os momentos que não estão propriamente ditos no texto, escreva sobre o passado das personagens, sobre o futuro, escreva sobre outras personagens (mesmo que elas não apareçam no texto), enfim, escreva sobre tudo que pode contribuir ao entendimento daquilo que aparece no texto. Isso permite aos atores entenderem em maior profundidade a obra que executarão. Não precisa ser escrito com precisão técnica e nem necessita de muitas páginas, apenas o que julgar necessário e o modo precisa ficar claro ao menos para quem estiver trabalhando com você.

EX: No caso de “AMBULANTE”, o que julgamos fundamental escrever foi um breve texto sobre o passado de cada personagem.

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Todos têm um passado.

Bom, é isso garobaba, esperamos ter ajudado. Tentaremos sempre colocar textos que contribuam ao conhecimento artístico de parceiros e iniciantes nesse universo.

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Augusto e Elaine fundaram a Cia Arte Negus e acreditam no riso como instrumento de transformação social.

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  • Lucimara

    Adorei a postagem e me ajudou muito. Tenho um grupo de teatro no interior com muitas estórias pra contar e ideias para montagem, mas ainda “apanhamos” para colocá-las no palco. Obrigada! 🙂