SOBRE INFÂNCIA, ARTE E INDICAÇÃO ETÁRIA

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Muitas coisas tem sido ditas ultimamente a respeito de que certas manifestações artísticas tem afetado o estado emocional e psicológico de crianças, outras pessoas, mais incisivas, fazem campanha contra exposições artísticas e vimos até um vídeo de uma pessoa saindo como se estivesse horrorizada com uma exposição. Evitamos participar de assuntos polêmicos publicamente, pois acreditamos que as polêmicas servem apenas para reforçar as visões de mundo de polos opostos, e nunca ajudam a criar um ambiente calmo para a compreensão das diferenças. O mundo tem rodado ao redor do sol como sempre fez, mas, ao mesmo tempo, parece que está muito diferente nos últimos anos. Parece que não conseguimos mais realizar debates sadios a respeito de certos temas, pois mal começamos a conversar alguém se levanta dizendo que é contra esta ou aquela opinião e te taxa de uma série de coisas, colocando rótulos e mais rótulos.

Bom, não gostamos de rótulos, eles escondem o que há de melhor numa pessoa. Então, como a poeira está um pouco mais calma, achamos conveniente colocar algumas visões e contribuições nossas aqui no site, ao menos para que o pessoal que acompanha nosso trabalho (educadores, pais, amigos e colegas de profissão) entendam nossa visão.

A INSTITUIÇÃO CULTURAL PODE PROIBIR A ENTRADA DE UMA CRIANÇA ACOMPANHADA?

Um instituição cultural tem o dever de colocar a classificação indicativa de uma exposição, peça, show, filme, etc. Informando para qual faixa etária é recomendada, contudo, se a criança ou adolescente estiver acompanhada de seus pais (ou ainda com terceiros autorizados), ela não pode proibir a entrada de qualquer criança no espaço. Está na lei, é o artigo 19 da portaria nº 1.100 de 14 de julho de 2006. (veja ela clicando aqui). Assim, pensem conosco, se no caso do MAM estava indicado, o espaço informou a mãe e ainda assim ela quis entrar com a garota, legalmente o espaço não pode proibir.

ARTISTAS DEVEM TER SUAS PRODUÇÕES CENSURADAS?

Jamais! A arte é o reflexo de uma época, do pensamento de um representante da especie humana (que pode ser inclusive você, pois em relação aos aspectos expressivos, todos somos artistas) sobre o mundo e época que vive. Ela pode ter indicações e talvez a lei possa até mudar e realmente negar a entrada de crianças caso o conteúdo de uma obra for julgado como inadequado para certa faixa etária. Mas a ninguém pode ser vetado o direito de livre expressão. Algumas pessoas podem perguntar “Ah, mas assim pode dar brecha para apologias ao crime e etc!” Cremos que, mais uma vez, certos assuntos, não podem deixar de serem conversados por serem tabu, e, caso alguém se ofenda, caso alguma obra realmente tenha um conteúdo criminoso, cabe levarmos para julgamento da lei, com as penalidades adequadas (veto, contrapartida social, etc), cabe a justiça ter discernimento (o que em algumas situações anda faltando) para avaliar o contexto daquela manifestação cultural, mas não acreditamos que podar uma visão de mundo seja o caminho.

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

Também acreditamos que os discursos ganham repercussão por motivações diversas, algumas vezes pessoas compram ideias de sua grupo social e compartilham sem terem refletido profundamente sobre aquilo. É o caso de torcida de futebol, sabe? Você acredita que seu time é melhor na grande maioria das vezes, só se algo for muito estranho que você dirá o contrário (tipo o 7×1 – Brasil e Alemanha). Vemos certos canais midiáticos com produções de alcance à grandes públicos veiculando o tempo todo discursos sexistas, eróticos, machistas e, talvez por serem aceitos pelo grupo que você faz parte, você não se incomoda. Isso ocorre para todo tipo de contexto sociocultural, já vi também muitos artistas engajados, de grupos que fazemos parte, terem discursos que discordamos totalmente. Nossa posição é sempre parar, pensar, analisar e depois responder. E, acima de tudo, se você mudar de opinião, não ficar constrangido de alterá-la publicamente.

Augusto e Elaine fundaram a Cia Arte Negus e acreditam no riso como instrumento de transformação social.

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