Sobre o Riso e o Lúdico

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Já houve algum momento em que taxaram seu trabalho de “lúdico“? Ou usaram essa expressão para designar a aparência de sua prática em palhaçaria e/ou contação de histórias? Ou ainda, relacionaram seu trabalho ao lúdico por ter características cômicas? Esse termo aparece na vida de quem trabalha com palhaçaria em algum momento, o texto a seguir faz uma reflexão sobre o riso e o lúdico.

De início, vamos partir da ideia de que o RISO aqui tratado é o resultado de um efeito cômico, tudo bem? Digo isso pois há vários tipos de riso (o riso de nervosismo, o riso de cócegas, o riso pra cumprir um rito social). E o LÚDICO é o termo que designa o jogo, a ação de jogar.

Para começar a conversa sobre o riso, vale trazer o que foi proposto por Aristóteles, “o homem é o único animal que ri”. Quando o filósofo grego coloca essa afirmação elabora um contraste entre os seres humanos e as outras espécies de animais, mostrando que essa diferença esta pautada justamente na capacidade de poder rir. Essa separação, a partir da aptidão de executar o riso, é quase como instaurar uma nova tônica biológica, como se, do mesmo modo que existe uma diferenciação entre os homens e as outras espécies de animais devido às capacidades intelectuais e motoras, existisse uma barreira que divide as espécies no tocante a sua predisposição ao riso. Uma distinção tão intensa que o historiador Johan Huizinga, em seu livro Homo Ludens, aponta o seguinte sobre o riso e o jogo:


“É curioso notar que o ato puramente fisiológico de rir é exclusivo dos homens, ao passo que a função significante do jogo é comum aos homens e animais. O animal ridens de Aristóteles caracteriza o homem, em oposição aos animais, de maneira quase tão absoluta quanto o homo sapiens.” Johan Huizinga


Essa relação entre o riso e o jogo é o que instaurou de maneira profunda o pensamento que qualifica o ato de rir como lúdico, contudo essa relação nem sempre ocorre. Vale ater-se no seguinte,a ideia de ludicidade tem a ver com jogo, e nem todo jogo gera o riso.

Um jogo pode ganhar outros contornos, e pode aparecer mais permeado de sensações não necessariamente relacionadas ao riso. Por exemplo, no jogo há a derrota, ainda que em algumas vezes perder e ganhar podem ser tratados com tranquilidade pelos jogadores, noutras vezes a derrota leva a sensações distantes da diversão e comicidade. Nisso é relevante o ator/palhaço/contador de histórias se atrelar, se você for jogar com a platéia cuidado para não gerar uma sensação de derrota, pois pode ser desconfortável demais para quem perde. De todo modo, o importante é fazer as suas escolhas com consciência sobre o que elas podem gerar no espectador/ouvinte.

O termo lúdico é muito utilizado para designar coisas próprias do universo infantil, do universo onírico, de um universo de prazer… mas nem sempre é assim. As vezes o riso e a comicidade nem aparecem numa prática lúdica. Huzinga, o autor que comentei anteriormente fala isso da seguinte forma:


“O riso, por exemplo, está de certo modo em oposição à seriedade, sem de maneira alguma estar diretamente ligado ao jogo. Os jogos infantis, o futebol, o xadrez são executados dentro da mais profunda seriedade, não verificando nos jogadores a menor tendência ao riso. […] O que vale para o riso vale igualmente para o cômico. O cômico é compreendido pela categoria da não-seriedade e possui certas afinidades com o riso, na medida em que o provoca, mas sua relação com o jogo é perfeitamente secundária. Considerado em si mesmo, o jogo não é cômico nem para os jogadores nem para o público.”


De todo modo, as duas características – o riso e o lúdico – estão entrelaçadas, pois são facilmente percebidas no comportamento humano, e em vários momentos relacionadas uma com a outra, mas não necessariamente tem seus conceitos e compreensões em confluência perene. Por isso vale, quando apresentarmos nossas propostas artísticas, se atentar que nem tudo o que é lúdico é leve, infantil e/ou cômico.

Espero que essas reflexões contribuam a seu fazer artístico, à sua aula, etc. Agora colocaremos alguns artigos aqui, discutindo e refletindo sobre a prática artística do palhaço, teatro, narração de histórias e outras. Caso queira complementar essa discussão, comentei abaixo. E, se quiser receber dicas, promoções e notícias daqui do site, cadastre-se para ficarmos conectados.

Elaine Guarani
Elaine Guarani é palhaça, contadora de histórias, mestre em História, com pesquisa voltada para figuras cômicas ritualísticas em algumas sociedades indígenas. Fundadora da Cia Arte Negus e adora tomar um tereré bem gelado num dia quente de verão.

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